Por uma geopolítica anti-imperialista

Não cumpriria a Geopolítica, plenamente, o papel que lhe cabe, se, além de interprete segura da conjuntura mundial e nacional no que esta apresenta de mais fundamental e estável, não fosse também capaz de fecundas e acertadas previsões sobre os dias de amanhã. Mas os Mahan, os Mackinder e os Spykman serão sempre, na verdade, bem raros… Mais raro ainda é que sejam ouvidos a tempo (Gen. Golbery do Couto e Silva)

A década de 10 tem projeção de crescimento de 1,9% do PIB, de acordo com a sistematização feita pelo jornal Folha de S. Paulo, com base nas Projeções Focus e fontes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O baixo crescimento deveu-se à quatro fatores estruturais: 1) Crise de industrialização em virtude da financeirização da economia e da doença holandesa primário-exportadora; 2) Consolidação da China como ator geopolítico e geoestratégico a partir da concentração industrial; 3) Novos acordos de comércio com nova divisão territorial do trabalho, onde coube ao Brasil o neoextrativismo e agronegócio predatório; 4) Novo pacto de classe por novas demandas corporativas por superexploração do trabalho com “flexibilização” e “terceirização”.

Contudo, diante deste cenário, os governos não criaram óbice à essas tendências, a partir de políticas anticíclicas, em virtude de dois principais fatores: 1) grande poder dos bancos brasileiros nas decisões de política econômica; 2) domínio político, territorial e ideológico do agronegócio brasileiro. A esses elementos estruturais se somou uma dura crise política imposta pelas áreas mais reacionárias da República, composta por movimentos políticos financiados pelo grande capital, por partidos de direita e extrema-direita e por servidores públicos das forças policiais, do judiciário e militares.

Atualmente podemos afirmar, de forma inequívoca, que esses setores, especialmente o poder judiciário, conspirou contra o Estado brasileiro através de uma relação direta com órgãos de espionagem dos Estados Unidos, que não viam com “bons olhos” o desenvolvimento da grande indústria de petróleo e de engenharia do Brasil. Nesse sentido, diante da grande popularidade dos governos Lula da Silva e Dilma Roussef (ambos do Partido dos Trabalhadores), parece que a única forma de derrotar o avanço das políticas públicas e de desenvolvimento seria através de um golpe de Estado, o que se concretizou em 2016.

A desídia para com o uso da inteligência em uma geoestratégia de defesa, em pleno auge do realismo geopolítico no século XXI, fez com que informações geoestratégicas fossem apropriadas pelo império estadunidense, de modo que pudessem aplicar sua guerra contra o Brasil. De qualquer modo, esta situação foi apenas mais um capítulo da longa trajetória de dominação dos Estados Unidos sobre o Brasil. Podemos remontar essa história com a Doutrina Monroe, quando, a partir de 1823, ocorreu uma marcha para o Caribe (e Chile) com base na militarização da região às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Os Estados Unidos terminam a Primeira Guerra como país vencedor, e passam a maior potência industrial, negociando com o mundo a partir da lógica das vantagens comparativas, onde o Brasil passa ser importante fornecedor de café e borracha, além de ser cobiçado por minérios como ouro, ferro e manganês.

Após a quebra da bolsa de Nova York, o Brasil entra em um processo desenvolvimentista que estancaria a influência estadunidense. Não esgotou o domínio, mas o Brasil avança uma agenda de substituição de importações e nacionalismo fundamental para organizar um território soberano. Essa espiral de desenvolvimento interno terminaria em 1945, em mais um governo militar após 1894. Mas, foi com o golpe de 1964, que o Brasil foi abraçado pelos tentáculos do império, com uma forte onda de técnicas e normas no território brasileiro, totalmente voltadas aos interesses dos Estados Unidos, desde a distribuição de terras, passando pelo controle ideológico militar até o Ministério da Educação.

Durante o período em que os militares intervieram no país, a mando dos Estados Unidos, foi adotada a “Doutrina de Segurança Nacional”. Com isso, o legado nacionalista de Mário Travassos e sua “Projeção continental do Brasil” ficaria relegada a um plano secundário.

A “Doutrina” baseada e inspirada na guerra permanente excepcionalista estadunidense, estipulava como inimigo central o “comunismo”, a partir de “laços de solidariedade” estreitados através da guerra. Pelo fato de o Brasil não possuir “inimigos externos” (apesar do autor deste artigo, considerar os Estados Unidos, o inimigo principal do Brasil), e da guerra ser o amálgama das relações entre militares, a “Doutrina” acabou por sistematizar as linhas de ataque ao inimigo interno [1].

Essa condição levou o país ao aprofundamento da dependência, sem a condição de execução de uma Doutrina Geopolítica desde o Sul, alinhando cegamente o Brasil aos Estados Unidos, apesar da frase dita pelo Gen. Golbery do Couto e Silva, que por sua vez não entendeu sua própria frase, ou não ouviu a tempo “os Mahan, os Mackinder e os Spykman”. Cabe também se pensar na possibilidade de não ter interpretação de texto a contento para sua posição.

Que fazer?

A anti-geopolítica golberyana ou, uma geopolítica subimperialista, terá consequências nos anos seguintes tanto no desenvolvimento do país, conforme já mencionado, como na mentalidade do povo e na atuação dos intelectuais, especialmente da Geografia, demasiadamente influenciados por Yves Lacoste, com seu “Geografia: isso serve antes de mais nada para fazer a guerra” e outros autores marxistas internacionalistas/trotskistas da chamada “Geografia Crítica”.

Essa “Geografia Crítica” optou pelo caminho de criticar a Geopolítica por seus autores considerados “positivistas”, “imperialistas” e “beligerantes”, que viam a estratégia territorial de grande escala como instrumentos da “burguesia”. Na maior parte das análises ficava claro que para “fazer geografia crítica”, era necessário renegar a Geografia Tradicional. Consequentemente, essa geografia deveria ser marxista, necessariamente internacionalista, abnegando o nacionalismo como estratégia de libertação nacional por meio de uma geopolítica anti-imperialista.

Os “críticos” fizeram tábula rasa da geopolítica como instrumento do nazifascismo, como é o caso de Nelson Werneck Sodré (Introdução à Geografia, 1977) e Antonio Carlos Robert Moraes com sua “Geografia: Pequena História Crítica”, de 1981 (consertou a análise no livro Ratzel, de 1990, mas aí era tarde, pois ainda hoje se reproduzem as mesmas visões sobre seu “determinismo”).

A questão crucial é que se focou mais no método que na centralidade da Geografia Política de Ratzel. O que o autor propôs foi o estabelecimento de uma estratégia territorial dos Estados frente a um mundo organizado a partir de disputas e conflitos permanentes, já que em raros momentos de paz entre países, sempre há um ordenamento para a guerra.

Farei um artigo especial sobre Ratzel e todos os principais autores da Geopolítica, mas destaca-se aqui os equívocos da academia em não avançar em uma geopolítica emancipatória a partir do realismo, considerando que a guerra é parte da política dos Estados.

Ao focar no positivismo não se abstraiu o principal que estava na estratégia proposta para Ratzel para um contexto alemão específico e, ao focar somente no “racismo”, não se apreendeu a ideologia de defesa do território, a partir de máximas extremamente verdadeiras, voltadas a sistematizar a competição estatal onde o crescimento de um país passa pela insucesso de outro.

Deste modo, precisamos depreender os clássicos da geopolítica a partir da essência nacional e defesa do território, pensando um projeto de libertação do Brasil, colocando-o como centro de uma estratégia emancipatória verdadeiramente independente do imperialismo estadunidense, a fim de promover estratégias de desenvolvimento nacional.

Notas

[1] LIMA FILHO, Sebastião André Alves de. O que a Escola Superior de Guerra (ESG) ensinava. Fortaleza: PPGS/UFC, 2011. Disponível em: <http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/24611>.

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