EUA x Rússia: alguns números | Andrei Martyanov

Por Dossier Sul -15 de abril de 2021

Escrevi um artigo exclusivo para Andrei Raevsky (The Saker), onde abordei algumas questões relacionadas a salvação da frota russa do Mar Negro no caso da OTAN decidir “lutar”. Não creio que este cenário seja provável, mas, por precaução, aqui estão algumas conclusões tiradas por mim:

…há muita benevolência subsônica, supersônica e hipersônica a ser propagada pela frota russa do Mar Negro e as pessoas competentes do Pentágono sabem disso. É por isso que o aparecimento daqueles dois destroyers americanos no Mar Negro servem, literalmente, para exibição principalmente e para tentar coletar algumas informações para o que parece ser hoje uma probabilidade cada vez menor de confronto em Donbass. Escrevo freqüentemente que muitas pessoas nos EUA, e estou falando dos formuladores de políticas, não conseguem entender a dimensão de como os EUA estão atrás da Rússia no poder do fogo em todos os domínios.  E não apenas quantitativa; mas qualitativamente e a distância só continua a aumentar. Mas eu avisei sobre isso por anos, não avisei?

Andrei Raevsky intitulou (corretamente) minha matéria: “Por que não está avisado”. É um título sintomático desde hoje, como se ele lesse meus livros e meus escritos recentes, o Coronel Douglas Macgregor escreveu um artigo para o The American Conservative que tem como título: “Enfrentando os Fatos da Guerra com a Rússia”. A administração Biden parece disposta a nos colocar em uma luta para a qual não estamos preparados. Há muitos anos eu estive apelando para as elites políticas americanas enfrentarem os fatos. Agora o oficial sênior americano, um verdadeiro profissional, com reputação de visão realista do mundo lá fora, escreve:

Se o poder militar russo prevalecer, a promessa de apoio do Presidente Biden significa que as forças aéreas ou terrestres da OTAN, dos EUA ou Aliadas podem intervir para resgatar os ucranianos da derrota. Na Europa, as forças terrestres do Exército e da Marinha dos EUA são muito frágeis para intervir a 500 milhas a leste da fronteira com a Polônia, mesmo que reforçadas em tempo hábil por brigadas blindadas. Nenhuma das forças terrestres da OTAN está pronta para enfrentar as Formações de Artilharia de Foguetes BM-30 SMERCH da Rússia. Foguetes disparados de apenas cinco dos lança-foguetes russos BM-30 SMERCH podem devastar em minutos uma área do tamanho do Central Park da cidade de Nova Iorque (843 acres, ou 3,2 milhas quadradas). Assim, se as forças norte-americanas e aliadas intervierem, é provável que o façam com ativos aéreos. Não se sabe quão eficazes serão as defesas aéreas integradas russas, mas seria imprudente subestimar o impacto dos IADs russos com radares de fase. Alguns dos mais novos sistemas de defesa aérea como o russo S-500 são tão eficazes que muitos oficiais da Defesa dos EUA se preocupam em particular com o fato de que mesmo aviões de guerra como o F-22, F-35 e o B-2 correm o risco de serem destruídos se tentarem penetrá-los.

Macgregor comete um pequeno erro, porém. A Rússia não precisa do S-500 para fechar os céus sobre a Ucrânia. A linha dos modernos complexos AD da série S, desde S-400 das forças AD até a série S-300V específica do exército (tropas) AD e até Buk-M3 e Tor-M2 – estão todos integrados em uma rede flexível e bem protegida que não tem problemas para detectar, rastrear e abater qualquer alvo, seja um pequeno UAV ou a aeronave ou míssil mais furtiva. Além disso, é claro, se a situação dengrigolar, a Força Aérea Russa tem recursos suficientes para desafiar qualquer ativo aéreo dos EUA, aqueles que sobreviverão aos ataques no campo e bases aéreas.

Mas não é isto que realmente é importante no texto de Macgregor, o mais importante é sua corroboração do que estou escrevendo e avisando sem parar: os EUA são tendenciosos do ponto de vista nuclear e iniciarão a troca nuclear porque o que se espera das tropas americanas no caso dos Estados Unidos intervirem diretamente em um possível conflito na Ucrânia, é de um nível de perdas humanas e materiais que as Forças Armadas americanas nunca experimentaram em sua história. Macgregor, essencialmente, concorda:

Como os ventos predominantes na Europa Oriental espalhariam a precipitação nuclear pela Rússia e Ásia Central até a Coréia, o uso russo de armas nucleares é muito pouco comum – a não ser, é claro, que as forças dos EUA usem as chamadas “armas nucleares táticas”, o que desencadearia uma escalada da Rússia para o nível nuclear estratégico, com conseqüências sinistras para o planeta Terra. Entretanto, praticamente todas as instalações militares americanas e aliadas, da Estônia à Espanha, estarão ao alcance dos mísseis de cruzeiro Kalibrise russos carregando ogivas convencionais de 1.000 libras, altamente explosivas.

Como estou constantemente falando ao público – os Estados Unidos nunca travaram uma guerra com seu sistema de Comando e Controle sob o incessante impacto do fogo contínuo e sua retaguarda atacada e desorganizada. Convencionalmente, os Estados Unidos não podem vencer contra a Rússia na Europa, pelo menos a parte oriental dela e é melhor a administração Biden acordar para a realidade de que ela pode, de fato, não sobreviver a qualquer tipo de escalada e, de fato, os modernos Kalibrs, 3M14Ms, na verdade, têm um alcance de 4.500 quilômetros, bem como um alcance de mais de 5.000 quilômetros de mísseis de cruzeiro X-101, que não terão problemas com a penetração do espaço aéreo norte-americano quando lançados pelos bombardeiros estratégicos da Rússia sem sequer deixar a segurança do espaço aéreo russo.https://googleads.g.doubleclick.net/pagead/ads?client=ca-pub-7114433784312137&output=html&h=50&adk=1412873746&adf=2667193619&w=320&lmt=1618515243&psa=1&format=320×50&url=https%3A%2F%2Fdossiersul.com.br%2Feua-x-russia-alguns-numeros-andrei-martyanov%2F&flash=0&wgl=1&dt=1618515242949&bpp=8&bdt=3584&idt=701&shv=r20210413&cbv=r20190131&ptt=9&saldr=aa&abxe=1&cookie=ID%3Db6160ef623fe7bcf-22e67e429fb80048%3AT%3D1611366849%3ART%3D1611366849%3AS%3DALNI_MZSzh4i4r4FLT-IEK8C5cXQiXKLkQ&prev_fmts=320×50%2C0x0&nras=1&correlator=6784976607987&frm=20&pv=1&ga_vid=1387184957.1608933179&ga_sid=1618515243&ga_hid=1274973620&ga_fc=0&u_tz=-180&u_his=1&u_java=0&u_h=985&u_w=444&u_ah=985&u_aw=444&u_cd=24&u_nplug=0&u_nmime=0&adx=62&ady=4194&biw=444&bih=856&scr_x=0&scr_y=0&eid=44736525%2C31060005%2C44740079%2C31060474&oid=3&pvsid=483925919758877&pem=355&ref=http%3A%2F%2Fm.facebook.com%2F&eae=0&fc=896&brdim=0%2C0%2C0%2C0%2C444%2C0%2C444%2C856%2C444%2C856&vis=1&rsz=%7C%7CoeEbr%7C&abl=CS&pfx=0&fu=0&bc=31&ifi=3&uci=a!3&btvi=1&fsb=1&xpc=gNzFckxjiB&p=https%3A//dossiersul.com.br&dtd=729

É bom que Douglas Macgregor registre neste caso e sublinhe o fato de que a Rússia pode e irá, Deus não permita que isso aconteça, ganhar convencionalmente, enquanto os Estados Unidos perdem mesmo em um conflito nuclear. Mas também neste caso, todos nós perdemos. Transportar esta realidade de que os EUA não têm boas opções contra a Rússia é muito importante, especialmente para aquelas pessoas na administração atual que não têm nenhuma pista sobre a guerra moderna e como ela é travada – e esta é a esmagadora maioria das elites americanas. Eu não quero acabar sendo profético sobre os eventos que estou tentando desesperadamente evitar. Ter a opinião de um peso tão pesado como Douglas Macgregor sendo muito semelhante à minha ajuda enormemente.

Em notícias relacionadas, a aflição do palhaço ucraniano:

Um porta-voz do presidente da Ucrânia diz que eles têm tentado falar com Vladimir Putin sobre o acúmulo de tropas russas na fronteira, mas Putin não está aceitando a chamada.

Pobre, pobrezinho. Ele ainda não viu nada. Quando a Rússia começar uma verdadeira formação de tropas russas, é melhor que ele tenha seu jato abastecido e pronto para ir no aeroporto de Borispol, em Kiev. Mas isto é só para o caso de ele obrigar e cumprir suas ordens de seus tratadores em Washington. Ele ainda pensa que os Estados Unidos tem “a melhor força de combate da história”, bem, ele pode descobrir logo qual a situação real se não for cauteloso. Como Peskov hoje respondeu às ameaças de Blinken sobre “consequências” (em russo) quase à maneira de Fulbright, essa constante ameaça com consequências e “pagando um preço” desvaloriza completamente essas ameaças. Lembrando:

“Simplesmente não é necessário para nós estarmos eternamente proclamando: ‘Eu sou o maior!’ Quanto mais se faz este tipo de coisa, na verdade, mais as pessoas duvidam disso….”.

Os Estados Unidos simplesmente estouraram o limite da gabolice.

***

Andrei Martyanov é especialista em questões militares e navais russas, foi oficial da Marinha, na guarda costeira soviética e russa. Autor do livro Losing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning e The (Real) Revolution in Military Affairs

Originalmente em Reminiscence of the Future

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