O Milagre Chinês – Revisitado | Pepe Escobar

2 de julho de 2021

Por Pepe Escobar

O centenário do Partido Comunista Chinês (PCC) ocorre esta semana no coração de uma equação geopolítica incandescente.

A China, a superpotência emergente, está de volta à proeminência global que desfrutou ao longo de séculos de história, enquanto o Hegêmona em declínio está paralisado pelo “desafio existencial” imposto ao seu domínio fugaz e unilateral.

Uma mentalidade de confronto de espectro total já esboçada no National Security Review americano de 2017 está se desdobrando rapidamente em medo, aversão e sinofobia implacáveis.

Acrescente a isso a parceria estratégica abrangente Rússia-China expondo graficamente o último pesadelo mackinderiano das elites anglo-americanas exaustas de “governar o mundo” – por apenas dois séculos, na melhor das hipóteses.

O Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping pode ter cunhado a fórmula definitiva para o que muitos no Ocidente definiram como o milagre chinês:

“Buscar a verdade a partir dos fatos, não dos dogmas, seja do Oriente ou do Ocidente”.

Portanto, nunca teve a ver de intervenção divina, mas de planejamento, trabalho árduo e aprendizagem por tentativa e erro.

A recente sessão do Congresso Nacional do Povo fornece um exemplo flagrante. Não apenas aprovou um novo Plano Quinquenal, mas na verdade um roteiro completo para o desenvolvimento da China até 2035: três planos em um.

O que o mundo inteiro viu, na prática, foi a manifesta eficiência do sistema de governança chinês, capaz de conceber e implementar estratégias geoeconômicas extremamente complexas, após muitos debates locais e regionais sobre uma vasta gama de iniciativas políticas.

Compare isso com as intermináveis disputas e impasses nas democracias liberais ocidentais, que são incapazes de planejar para o próximo trimestre, imagine quinze anos.

Os melhores e mais brilhantes da China realmente fazem seu Deng; eles não poderiam se importar menos com a politização dos sistemas de governança. O que importa é o que eles definem como SMART, um sistema muito eficaz para fazer planos de desenvolvimento  (específicos, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo determinado) e colocá-lo em prática.

Os 85% de aprovação popular

No início de 2021, antes do início do Ano do Boi de Metal, o Presidente Xi Jinping enfatizou que “condições sociais favoráveis” deveriam estar em vigor para as celebrações do centenário do PCC.

Alheio às ondas de demonização vindas do Ocidente, para a opinião pública chinesa o que importa é se o PCC cumpriu ou não. E a resposta é afirmativa (mais de 85% de aprovação popular). A China controlou a Covid-19 em tempo recorde; o crescimento econômico retornou; a redução da pobreza foi alcançada; e o estado civilizatório tornou-se uma “sociedade moderadamente próspera” – bem dentro do cronograma para o centenário do PCC.

Desde 1949, o tamanho da economia chinesa aumentou em 189 vezes. Nas últimas duas décadas, o PIB da China cresceu 11 vezes. Desde 2010, mais do que dobrou, de US$6 trilhões para US$15 trilhões, e agora responde por 17% da produção econômica global.

Não é de se admirar que o murmúrio ocidental seja irrelevante. O chefe de investimentos da Shanghai Capital, Eric Li, descreve sucintamente a lacuna de governança; nos EUA, o governo muda, mas não a política. Na China, o governo não muda; a política, sim.

Este é o pano de fundo para o próximo estágio de desenvolvimento – onde o PCC, de fato, duplicará seu modelo híbrido único de “socialismo com características chinesas”.

O ponto-chave é que a liderança chinesa, através de ajustes políticos contínuos (tentativa e erro, sempre) desenvolveu um modelo de “ascensão pacífica” – sua própria terminologia – que respeita essencialmente as imensas experiências históricas e culturais da China.

Neste caso, o excepcionalismo chinês significa respeitar o confucionismo – que privilegia a harmonia e abomina o conflito – assim como o taoísmo – que privilegia o equilíbrio – em detrimento do modelo ocidental turbulento, belicoso e hegemônico.

Isto se reflete em grandes ajustes políticos, tais como o novo impulso de “dupla circulação”, que coloca maior ênfase no mercado interno em comparação com a China como a “fábrica do mundo”.

Passado e futuro estão totalmente interligados na China; o que foi feito nas dinastias anteriores ecoa no futuro. O melhor exemplo contemporâneo é a Nova Rota da Seda, ou a ICR – o conceito global da política externa chinesa para o futuro previsível.

Conforme detalhado pelo professor da Universidade Renmin Wang Yiwei, a ICR está prestes a reformular a geopolítica, “trazendo a Eurásia de volta ao seu lugar histórico no centro da civilização humana”. Wang mostrou como “as duas grandes civilizações do Oriente e do Ocidente estavam ligadas até a ascensão do Império Otomano cortar a Antiga Rota da Seda”.

O movimento da Europa em direção ao mar levou à “globalização através da colonização”; o declínio da Rota da Seda; a mudança do centro do mundo para o Ocidente; a ascensão dos Estados Unidos; e o declínio da Europa. Agora, Wang argumenta, “a Europa enfrenta uma oportunidade histórica de retornar ao centro mundial através do renascimento da Eurásia”.

E isso é exatamente o que o Hegêmona tentará, sem limites, impedir.

Zhu e Xi

É justo argumentar que a contraparte histórica de Xi é o imperador Zhu, de Hongwu, fundador da dinastia Ming (1368-1644). O imperador estava interessado em apresentar sua dinastia como uma renovação chinesa após a dominação mongol através da dinastia Yuan.

Xi a enquadra como “rejuvenescimento chinês”: “A China era uma potência econômica mundial. No entanto, perdeu sua chance após a Revolução Industrial e as consequentes mudanças dramáticas, e assim foi deixada para trás e sofreu humilhações sob invasão estrangeira… não devemos deixar que esta trágica história se repita”.

A diferença é que a China do século 21 sob Xi não vai se voltar para dentro como fez sob o Ming. O paralelo para o futuro próximo seria com a dinastia Tang (618-907), que privilegiou o comércio e as interações com o mundo em geral.

Comentar a torrente de más interpretações ocidentais sobre a China é uma perda de tempo. Para os chineses, a esmagadora maioria da Ásia, e para o Sul Global, muito mais relevante é registrar como a narrativa imperial americana – “nós somos os libertadores da Ásia-Pacífico” – foi agora totalmente desbancada.

De fato, o presidente Mao pode acabar dando a última gargalhada. Como ele escreveu em 1957, “se os imperialistas insistirem em lançar uma terceira guerra mundial, é certo que várias centenas de milhões mais se voltarão para o socialismo, e então não haverá muito espaço na Terra para os imperialistas; também é provável que toda a estrutura do imperialismo se desmorone completamente”.

Martin Jacques, um dos poucos ocidentais que realmente estudaram a China em profundidade, apontou corretamente como “a China desfrutou de cinco períodos separados quando usufruia de uma posição de preeminência – ou de preeminência compartilhada – no mundo: parte de Han, Tang, indiscutivelmente Song, o Ming inicial, e o Qing inicial”.

Assim, a China, historicamente, representa uma renovação contínua e um “rejuvenescimento” (Xi). Estamos bem no meio de outra destas fases – agora conduzida por uma dinastia PCC que, por acaso, não acredita em milagres, mas em planejamentos barra pesada. Os excepcionalistas ocidentais podem continuar a lançar ataques ad infinitum: isso não vai mudar o curso da história.

***

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Strategic Culture Foundation

Traduzido por Dossier Sul

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